por Cida Cortez
A metamorfose eleitoral de alguns gestores públicos é um dos fenômenos mais reveladores da política contemporânea. Não raramente, a proximidade das eleições produz discursos que contrastam com a experiência vivenciada pela sociedade ao longo do exercício do mandato.
O recente vídeo divulgado nas redes sociais pelo ex-secretário de Estado de Educação de Mato Grosso, Alan Porto, agora candidato a deputado estadual, no qual afirma “eu quero falar com você”, convida os profissionais da educação e a sociedade mato-grossense a refletirem sobre a coerência entre o discurso apresentado durante a campanha e a atuação desenvolvida ao longo de sua gestão.
Durante mais de sete anos à frente da Secretaria de Estado de Educação, muitos profissionais da educação perceberam uma significativa dificuldade de interlocução com a gestão. Diversas reivindicações apresentadas por sindicatos, conselhos, entidades representativas e trabalhadores da educação foram objeto de manifestações públicas e de sucessivos pedidos de diálogo, que, na percepção de grande parte da categoria, não resultaram em processos permanentes de negociação institucional.
A criação de um canal direto de comunicação justamente no período eleitoral desperta um questionamento legítimo: por que a disposição para ouvir se manifesta agora? A resposta a essa pergunta cabe aos eleitores, especialmente àqueles que acompanharam de perto as políticas implementadas na educação pública estadual nos últimos anos.
O período da gestão de Alan Porto à frente da Secretaria de Estado de Educação permanece cercado por avaliações críticas formuladas por profissionais da educação, pesquisadores, entidades representativas e segmentos da sociedade civil. Entre os temas mais debatidos estão a cobrança da contribuição previdenciária dos aposentados, o fechamento e a reorganização de unidades escolares, a descontinuidade dos Centros de Formação e Atualização dos Profissionais da Educação Básica (CEFAPROs), alterações nas políticas de formação continuada, mudanças na organização da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e o aumento da sobrecarga de trabalho dos profissionais da educação. Esses assuntos motivaram mobilizações, audiências públicas, manifestações sindicais e amplo debate durante a gestão.
Também persistem questionamentos sobre determinadas políticas pedagógicas adotadas no período. Muitos educadores sustentam que indicadores quantitativos passaram a receber maior atenção do que a aprendizagem efetiva dos estudantes, enquanto decisões relevantes para a rede estadual foram implementadas sem ampla participação das comunidades escolares e de suas instâncias representativas.
A democracia exige que o diálogo entre governo e sociedade seja contínuo. Ouvir os cidadãos não deve ser um gesto restrito ao período eleitoral, mas uma prática permanente da administração pública. O exercício da gestão democrática pressupõe transparência, participação social, respeito às entidades representativas e disposição para construir soluções coletivas.
Nesse contexto, a iniciativa de criar um canal de escuta em meio à campanha eleitoral inevitavelmente será comparada com a experiência vivenciada por milhares de profissionais da educação ao longo dos últimos anos. É justamente essa comparação que permitirá ao eleitor avaliar a coerência entre o discurso atual e a prática administrativa anteriormente adotada.
Em uma sociedade democrática, o voto não deve ser orientado apenas pelas promessas do presente, mas também pela memória das ações efetivamente realizadas. A credibilidade de um projeto político se constrói pela coerência entre aquilo que se promete e aquilo que se pratica quando se exerce o poder.
A educação pública merece gestores comprometidos com o diálogo permanente, com a valorização dos profissionais e com a construção coletiva das políticas educacionais. A escuta verdadeira não nasce na campanha; ela deve acompanhar toda a trajetória de quem ocupa uma função pública.
Este artigo expressa a opinião da autora, fundamentada em fatos públicos relacionados à gestão da educação estadual e no debate democrático sobre políticas públicas.
Maria Aparecida A. Cortez – Técnico-Administrativo em Educação (TAE) na Rede Estadual – Licenciada em Pedagogia e Especialista em Didática do Ensino Superior.

